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E agora?

Janeiro 14, 2008
Por António Barreto
A MEIA DÚZIA DE LAVRADORES que comercializam directamente os seus produtos e que sobreviveram aos centros comerciais ou às grandes superfícies vai agora ser eliminada sumariamente. Os proprietários de restaurantes caseiros que sobram, e vivem no mesmo prédio em que trabalham, preparam-se, depois da chegada da “fast food”, para fechar portas e mudar de vida. Os cozinheiros que faziam a domicílio pratos e “petiscos”, a fim de os vender no café ao lado e que resistiram a toneladas de batatas fritas e de gordura reciclada, podem rezar as últimas orações. Todos os que cozinhavam em casa e forneciam diariamente, aos cafés e restaurantes do bairro, sopas, doces, compotas, rissóis e croquetes, podem sonhar com outros negócios. Os artesãos que comercializam produtos confeccionados à sua maneira vão ser liquidados.
A SOLUÇÃO FINAL vem aí. Com a lei, as políticas, as polícias, os inspectores, os fiscais, a imprensa e a televisão. Ninguém, deste velho mundo, sobrará. Quem não quer funcionar como uma empresa, quem não usa os computadores tão generosamente distribuídos pelo país, quem não aceita as receitas harmonizadas, quem recusa fornecer-se de produtos e matérias-primas industriais e quem não quer ser igual a toda a gente está condenado. Estes exércitos de liquidação são poderosíssimos: têm Estado-maior em Bruxelas e regulam-se pelas directivas europeias elaboradas pelos mais qualificados cientistas do mundo; organizam-se no governo nacional, sob tutela carismática do Ministro da Economia e da Inovação, Manuel Pinho; e agem através do pessoal da ASAE, a organização mais falada e odiada do país, mas certamente a mais amada pelas multinacionais da gordura, pelo cartel da ração e pelos impérios do açúcar.
EM FRENTE À FACULDADE onde dou aulas, há dois ou três cafés onde os estudantes, nos intervalos, bebem uns copos, conversam, namoram e jogam às cartas ou ao dominó. Acabou! É proibido jogar!
Nas esplanadas, a partir de Janeiro, é proibido beber café em chávenas de louça, ou vinho, águas, refrigerantes e cerveja em copos de vidro. Tem de ser em copos de plástico.
Vender, nas praias ou nas romarias, bolas de Berlim ou pastéis de nata que não sejam industriais e embalados? Proibido.
Nas feiras e nos mercados, tanto em Lisboa e Porto, como em Vinhais ou Estremoz, os exércitos dos zeladores da nossa saúde e da nossa virtude fazem razias semanais e levam tudo quanto é artesanal: azeitonas, queijos, compotas, pão e enchidos.
Na província, um restaurante artesanal é gerido por uma família que tem, ao lado, a sua horta, donde retira produtos como alfaces, feijão verde, coentros, galinhas e ovos? Acabou. É proibido.
Embrulhar castanhas assadas em papel de jornal? Proibido.
Trazer da terra, na estação, cerejas e morangos? Proibido.
Usar, na mesa do restaurante, um galheteiro para o azeite e o vinagre é proibido. Tem de ser garrafas especialmente preparadas.
Vender, no seu restaurante, produtos da sua quinta, azeite e azeitonas, alfaces e tomate, ovos e queijos, acabou. Está proibido.
Comprar um bolo-rei com fava e brinde porque os miúdos acham graça? Acabou. É proibido.
Ir a casa buscar duas folhas de alface, um prato de sopa e umas fatias de fiambre para servir uma refeição ligeira a um cliente apressado? Proibido.
Vender bolos, empadas, rissóis, merendas e croquetes caseiros é proibido. Só industriais.
É proibido ter pão congelado para uma emergência: só em arcas especiais e com fornos de descongelação especiais, aliás caríssimos.
Servir areias, biscoitos, queijinhos de amêndoa e brigadeiros feitos pela vizinha, uma excelente cozinheira que faz isto há trinta anos? Proibido.
AS REGRAS, cujo não cumprimento leva a multas pesadas e ao encerramento do estabelecimento, são tantas que centenas de páginas não chegam para as descrever.
Nas prateleiras, diante das garrafas de Coca-Cola e de vinho tinto tem de haver etiquetas a dizer Coca-Cola e vinho tinto.
Na cozinha, tem de haver uma faca de cor diferente para cada género.
Não pode haver cruzamento de circuitos e de géneros: não se pode cortar cebola na mesma mesa em que se fazem tostas mistas.
No frigorífico, tem de haver sempre uma caixa com uma etiqueta “produto não válido”, mesmo que esteja vazia.
Cada vez que se corta uma fatia de fiambre ou de queijo para uma sanduíche, tem de se colar uma etiqueta e inscrever a data e a hora dessa operação.
Não se pode guardar pão para, ao fim de vários dias, fazer torradas ou açorda.
Aproveitar outras sobras para confeccionar rissóis ou croquetes? Proibido.
Flores naturais nas mesas ou no balcão? Proibido. Têm de ser de plástico, papel ou tecido.
Torneiras de abrir e fechar à mão, como sempre se fizeram? Proibido. As torneiras nas cozinhas devem ser de abrir ao pé, ao cotovelo ou com célula fotoeléctrica.
As temperaturas do ambiente, no café, têm de ser medidas duas vezes por dia e devidamente registadas.
As temperaturas dos frigoríficos e das arcas têm de ser medidas três vezes por dia, registadas em folhas especiais e assinadas pelo funcionário certificado.
Usar colheres de pau para cozinhar, tratar da sopa ou dos fritos? Proibido. Tem de ser de plástico ou de aço.
Cortar tomate, couve, batata e outros legumes? Sim, pode ser. Desde que seja com facas de cores diferentes, em locais apropriados das mesas e das bancas, tendo o cuidado de fazer sempre uma etiqueta com a data e a hora do corte.
O dono do restaurante vai de vez em quando abastecer-se aos mercados e leva o seu próprio carro para transportar uns queijos, uns pacotes de leite e uns ovos? Proibido. Tem de ser em carros refrigerados.
TUDO ISTO, como é evidente, para nosso bem. Para proteger a nossa saúde. Para modernizar a economia. Para apostar no futuro. Para estarmos na linha da frente. E não tenhamos dúvidas: um dia destes, as brigadas vêm, com estas regras, fiscalizar e ordenar as nossas casas. Para nosso bem, pois claro.

«Retrato da Semana» – «Público» de 25 de Novembro de 2007

15 comentários

  1. Pois caro amigo, em Medicina, isto que o António Barreto denuncia e lamenta, é a chamada Prevenção Primária ( ataca-se as causas das doenças antes que elas aconteçam).
    Isto demonstra um profundo conhecimento das coisas médicas e uma grande sensibilidade médico-social deste governo.
    Não nos quer ver doentes, afasta-nos dos males porque vai tirando ao povo a possibilidade de se tratar atempadamente e não lhe resta outra alternativa.
    Portanto, concordo: é tudo “para nosso bem, pois claro”.


  2. lolllllsss esqueceram de alguma coisa …. que se lixem as proibições gostamos de calcar o risco…..


  3. PS: Termino com o sábio provérbio: ” A Medicina na mão do povo é como a espada na mão do louco” e eu acrescentaria: mão da ASAE e do Governo, seja ele qual seja e pinte-se com a cor que mais lhe aprouver…


  4. Muito bom este texto.
    É este o portugal moderno.


  5. É MESMO CORTAR…


  6. Um governo no seu melhor,
    para nos proteger dos males do mundo
    e da globalização.
    Obrigado 1º Minister,
    obrigado aos políticos em geral
    e obrigado à comunicação social
    por zelarem tão bem da nossa saúde.


  7. aDesenhar, bom blog! Pena não conseguir comentar!😉


  8. Queria dizer que visitei o teu blog e não dá para comentar!


  9. A ditadura da neo-globalização no seu estado mais fundamentalista.
    Saudações do Marreta.


  10. António Sabão

    É estranho não poderes comentar porque tenho os comentários abertos, excepto apenas para os anónimos!
    Se puderes dizer o que acontece agradecia para eu resolver o problema.


  11. Este comentário é mais para o comentário do bisturi:
    Prevenção Primária, pois claro!
    Então porque não vamos defender essa mesma prevenção quando, nas causas da delinquência, da toxicodependencia e de toda a marginalidade em geral estão, em primeiro lugar, causas de miséria social?
    Vamos combater a miséria social com o mesmo fundamentalismo com que queremos combater o uso das colheres de pau?
    Bora! Butes!
    Porque a toxicodependência e toda as outras misérias também entopem os serviços de Urgência dos hospitais, com chagas possivelmente evitáveis caso os salários que se pagam a muita GENTE não fossem tão indignos.E mais: a miséria pega-se, é altamente contagiosa…


  12. aDesenhar, o problema é que não tenho conta google e não posso escolher o wordpress para comentar como acontece noutros blogs!


  13. Esclarecimento ao MATA-RATOS:
    O meu comentário era , evidentemente, um comentário puramente irónico.
    Óbviamente que eu sou um profundo inimigo desta saga estúpida e fundamentalista,
    Um abraço e espreita o meu blog…


  14. Mesmo assim retirei o post, porque continha alguns erros de gravação, post que em qualquer altura colocarei no ar.
    Em substituição entrou o que já estava pronto e onde poderás comentar, porque vou abrir a caixa dos comentários.
    És bem-vindo à minha humilde tasca de esquissos.
    Aparece.

    abraço


  15. Esclarecimento ao Bisturi🙂

    Claro que era ironia…
    Eu apenas apanhei boleia para mandar umas bojardas. Digamos que a minha ironia foi mais grosseirita, mais proleta, mas, porra!, foi o que se pôde arranjar naquela hora.
    Vou já ‘aturar-te’ no teu blog, descansa!
    Um abraço



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