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Carta de RAC a Diogo Infante

Outubro 31, 2007


Nas próximas semanas, vai morrer todos os dias. Como calcula, desejo-lhe sorte. Suponho que morrer não seja tarefa fácil, embora não tenha dados concretos para sustentar esta posição. Toda a gente me diz que morrerei também, um dia, mas não sei se acredite. Só porque todas as pessoas que viveram no mundo antes de mim acabaram por morrer, isso não quer dizer que eu morra também. Não sou supersticioso.


Para dizer a verdade, não sei o que requer mais coragem: morrer, ou interpretar o Hamlet. Embora sejam duas actividades que se relacionem de mais que uma maneira, talvez encarnar o príncipe da Dinamarca seja mais arriscado do que, digamos, falecer. É que não há, no falecer, grandes hipóteses de errar. Falece-se, e pronto. Mas encarnar Hamlet pode dar-nos cabo da vida. Como a morte – lá está.

Sócrates, ao que diz Platão, não só não tinha medo da morte como estava relativamente interessado em morrer. Dizia que, sendo a morte igual a um sono sem sonhos, só poderia ser bem-vinda. Parece que a Xantipa era uma esposa pavorosa e não é difícil imaginar as recriminações que lhe fazia. «Andaste outra vez na maiêutica com os teus amigos, meu vagabundo», «Já te disse para não filosofares na cama, que me deixas os lençóis cheios de sofismas». Enfim, o costume. Não admira que Sócrates estivesse ansioso por uma boa soneca, mesmo que fosse eterna.

Hamlet não tem a mesma certeza de que a morte seja um sono sem sonhos. Receia que o undiscovered country possa ser um sono com sonhos terríveis. Se fosse apenas o sono sem sonhos de Sócrates, tudo seria mais simples para o príncipe dinamarquês.
Curioso é que o herói de everyman (que, não por acaso, Philip Roth também põe a falar com um coveiro) parece estar tão certo como Sócrates de que a morte é um sono sem sonhos, mas isso já não lhe chega. Pelos vistos, para o homem moderno, a morte perdeu boa parte do seu encanto. A idade não perdoa, e a velhota também já não é o que era.

Quanto a mim, só tenho uma hipótese: seja a morte o que for, o meu trabalho é fazer pouco dela. A minha missão é fazer aquilo que Hamlet sugere à caveira do bobo Yorick: «Vai procurar a minha senhora e diz-lhe que, por mais pintura que ponha no rosto, é a este estado que irá chegar. Fá-la rir disso. «Sempre acreditei que a vida será melhor para todos se conseguirmos rir disso.

Boa sorte, por isso, para si e para mim.

Ricardo Araújo Pereira

JL 01-10-07

Recebido por mail

4 comentários

  1. pensar mto… eu vou ler de novo e depois continuo a pensar…. beijinho


  2. Boas!
    O seu blogue está nomeado para o Prémio Cegueira Lusa relativo ao mês de Novembro.
    Cumprimentos,

    José Carreira


  3. Só para desejar um Happy Halloween!
    E deixo um desafio: que tal um cartoon para o dia das bruxas? Assim só para animar um bocadito…:D
    😉


  4. Creio q a morte só nos causa medo por não sabermos ao certo o q ela significa. No entanto, passamos a vida inteira tbém c/medo de vivermos da maneira como quisermos mesmo sabendo q viver significa antes de tudo morrer um pouco a cada dia!
    bjs e boa noite



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